Agônico
Carlos Silva
Inferno eterno aos homens terrenos
e que almas bem aventuradas
que descansam no céu do Deus-Pai
retornem ao seio da mãe Terra
e retalhem com seus dentes cariados
a carne úmida e sedenta de sexo
para que em um futuro-presente
nenhuma criança venha a ser amamentada
e as que estão em ventres sendo geradas
é melhor que não venham a nascer
para não terem que sofrer
o destino escroto e malevolente
daqueles que estão a viver
em metrópoles medíocres
lar doce lar
de milhões de humanos expiatórios
que calados
acompanham fileiras de zumbis
e são horas de espera
antes que o infeliz
o sempre último da fila
pegue seu prato de lavagem.
Triste e real imagem
de homens em decadência
que perderam a capacidade de raciocínio
e qualquer noção de inteligência
agora são loucos em completa demência
frágeis esqueletos cobertos por fina película
se alimentando com o gosto acre
de químicas espectrais
inalando gases nauseantes
nunca mais fragrâncias e perfumes naturais.
Ruídos e grunhidos desconexos
são as heranças da fala
comunicação inexistente.
E nesse mundo destruído
funcionam corretamente apenas computadores
programados com centenas, milhares, milhões de dados
com capacidade de pensar por si
e tiveram interesse em saber o que os homens
continuam a dizer mesmo depois de tudo
e isso foi feito, sem grandes conclusões
houve a repetição de uma única palavra em suas fitas microfilmadas
a única palavra inteligível foi:
Paz, paz, paz, paz, paz, paz, paz...paz ?